pulou um grilo nos pés dele.
não sabia de onde poderia ter vindo,
achava difícil grilos escalarem prédios,
quanto mais saltarem pelas escadas.
mas o fato é: ele pulou.
viera na sacola da feira,
grudado na barra da calça
ou pousado na mochila vermelha de um visitante?
esticou o braço instantaneamente, mesmo sem saber o motivo,
afinal não se interessava por significados sugeridos:
da estante, retirou o dicionário de símbolos.
resumiu mentalmente: renascimento.
espalmou a mão para acomodar o inseto
e o levou até a planta, uma entre muitas espalhadas pelo apartamento.
pensou: mudou um grilo pra cá. estimação.
do apartamento anterior
havia trazido uma lagartixa, guardiã,
que se esquivava pelas molduras dos quadros
e cruzava as paredes, misturando-se às sombras
da meia-luz dos abajures.
na área de serviço, junto a uma planta robusta,
cultivava em um frasco aberto
um casulo enrolado ainda em formação.
lembrou dos símbolos e percebeu que,
agora ou depois,
seria o grilo devorado pela lagartixa
e do casulo sairia um lepidóptero imprevisível.
restaria ele e a guardiã
à espera de uma nova metamorfose.
à espreita.