[ trecho ]

abriu a fotografia na tela e foi instantaneamente seduzido pelos olhos. não os olhos em si, mas algo intrigante que falava mais que qualquer contorno em preto e branco. a sombra. a sombra dos cílios projetada sobre as pálpebras, tocando de leve as sobrancelhas, lembrava quase cílios postiços. mas não era um fetiche. não, definitivamente, não. a sombra realçava o desejo daquele olhar; refletia aquilo que ainda era intocável quando recebeu a imagem por e-mail. sombras não são palpáveis.

_o que está fazendo?, disse eu.
_vendo seu autorretrato. é um fascínio, entende? difícil uma imagem causar em mim o que essa causou. não sei se é por você ou pela foto.
_os dois. acho que meu olhar é de quem procura. por isso ela não faz mais sentido pra mim. já encontrei o que procurava.

Φ estava sentado na mesa do consultório, bem na lateral do divã, onde eu estava deitado. fechei o livro com o indicador entre as páginas, virei a cabeça e não pude deixar de ser novamente seduzido por aquele olhar por trás das lentes e um leve sorriso de quem quer mais que o mero jogo de luz e sombra estampado numa fotografia.