[ café das primeiras horas ]





era costume sair de casa às madrugadas. de fones discretos nos ouvidos, long neck na mão esquerda e all star nos pés, percorria as ruas da cidade buscando não lugares ao som dos passos quase exclusivos. tudo bem que caminhar de madrugada era mais comum quando ele morava no interior, mas se dava ao luxo de, na metrópole, correr o risco de um passeio pela região da paulista num ou noutro desses albores.

mas ele havia voltado para sua terceira morada cronológica, a capital mineira. num bairro ainda desconhecido, incólume em grande parte da exploração de seus olhares. não sairia de casa. tomaria mais um café e tentaria passar o tempo cumprindo prazos de trabalho. chegou a ir até a porta, mas o alarme disparado do prédio o colocou em dúvida e preferiu não arriscar. sim, passaria mais uma noite imerso em cafeína e nicotina, drogas parceiras dos literatos. drogas tradicionais dos seres pensantes. não acreditava em romantismo sem café e cigarros. o mundo não fazia sentido sem cafés e cigarros. todo o universo dele estava ali, entre cafés e cigarros.

embora ele não tivesse um viés pra coisa, talvez a vida lhe proporcionasse mais aventuras se ele se rendesse a comportamentos obssessivos quaisquer, dos mais óbvios: não pisar nas linhas divisórias do piso de seu apartamento. conferir a fechadura trancada três vezes antes de se deitar. abrir um livro na página 100 todos os dias ao acordar. ler o jornal sempre de trás pra frente. só atender o telefone no terceiro toque. encostar o dedo em determinada cor sempre que lesse a palavra que lhe denominasse. dizer seu sobrenome, italiano, seguido de um sobrenome russo sempre que atendesse ao telefone.

não, a questão não era essa. o sintoma de tantas xícaras de café desde adolescente, tantas noites acordado em busca de silêncio, talvez não fosse para ser combatido. há leões com os quais não travamos luta, mas olhamos nos olhos e nos tornamos cúmplices na caça. há teias de aranha das quais não nos desvencilhamos, apenas andamos sobre os fios e nós, a passos curtos e leves, para não despertar a aracne. quando afogado se está, um jacaré basta para servir de flutuante.

parou em frente ao espelho e se viu, enfim, como outro. pôs-se entre dois espelhos e se viu como muitos. enguliu o café e se viu como ele mesmo. e riu. riu dos muitos e dos únicos que ele habitava e que o habitavam.

ele tomava café para desentorpecer.