ouviu o portão se abrindo. tirou o dedo da boca, jogou o livro no chão, acendeu um cigarro e correu para a varanda. sabia que não era ninguém, mas gostava da sensação de correr até a varanda quando o portão se abria - talvez a espera, em algum momento, se transformasse em sorriso e encontro provocado pela simples intenção - e intensão - da chegada.
encostou a cabeça na tela branca de polipropileno e soltou a fumaça. a gata, companheira de paisagens, mexia a cabeça seguindo o voo de um morcego sorrateiro, redundantemente notívago. pôs-se a pensar novamente que morcegos e pássaros convivem no mesmo habitat e abriu um sorriso diante da metáfora: por pouco, tão pouco, sua vida não se pareceria tanto com os parcos encontros entre avis e mammalis.
isto é só um fragmento, só um fragmento, pensou. preciso dormir para ter o poder de acreditar.
apagou o cigarro no batente de mármore da varanda, repousou a gata sobre o ombro esquerdo e disse em voz alta: preciso colher os frutos de tantas unhas roídas.