[ insights ]

ter ideias é o que mais importa.
o processo de criar.
para o resto, um dedo médio. esticado.

estava escrito na face interna da porta do banheiro fétido do boteco da esquina.
estranho. a caligrafia lhe era tão familiar.

[ máximas ]

o imperativo categórico era muito mais simples do que ele imaginava. e muito mais sem fundamento do que deveria.

próximo.

[ pedaços não dilacerados: encontrados ]

meu estorvo é minha sombra.
por isso vivo no escuro. nenhuma luz, nenhum estorvo.
ninguém entende o que digo.
pouco me importa.
projetar-me é minha sombra.

* * * * * * * * * *

só lembrei de comprar cigarros quando o sino da igreja tocou. mas já é tudo isso?, assustei-me com o horário, coloquei o primeiro all star sujo que encontrei no caminho até a sala e saí abotoando a calça. a luz dos elevadores favorecem as marcas no rosto, e é por isso que mulheres gostam de se maquilar no elevador. cocei a barba, acertei dois pêlos fora do lugar e lembrei que com certeza o porteiro estava vendo eu cravar as unhas numa pequena protuberância na testa.

* * * * * * * * * *

faz toda diferença.
a diferença, toda.
uma trajetória interrompida, repleta de lacunas, será sempre

* * * * * * * * * *

No meu quarteirão tem de tudo: igreja católica, farmácia, cabelereiro. Hospital, lanchonete, casa noturna. Lavanderia, imobiliária, vidente. Escola, ONG, botequim. Cães, paqueras, famílias. Gays, lésbicas, transexuais. Tiros, drogas, locadora. São Paulo, Minas Gerais, Rio de Janeiro.

Tem de tudo aqui, no meu quarteirão. Tudo e nada além do óbvio. Nada além

[ menos ela (ela quem?): a espera ]

não é só você que espera há tanto tempo.
minha espera é mais longa. apaixonei-me antes, sem que você notasse como eu te olhava de soslaio e te perseguia pelas montanhas asfaltadas da cidade interiorana.
conjuguei centenas de verbos ensaiando uma provável abordagem,
treinei expressões no espelho e escolhi possíveis combinações de roupas.
separei tênis cinza, calça jeans preta, cueca preta, camiseta branca e jaqueta jeans preta, se fizesse frio. corte de cabelo irregular, barba completa e bem aparada. tanta espera para que quando nos dirigíssemos a palavra, eu estivesse descalço, bermuda suja, gola desgrenhada e barba por fazer.
você não tirava os olhos de uma linha a quatro dedos do meu obro direito, fitava um furo na camiseta. fiquei pensando se o furo era vontade de desbravar o que por trás dele se manivestava, a pele branca como a tela que agora fito.
o furo da camisa virou furo na orelha, perfurações na língua e sobrancelha. tudo em tua homenagem. encomendei perfurações na certeza de que a dor física arrancaria de mim a espera, deixando metais como enfeite.
só a dor se foi. mantenho aço e titânio no corpo à espera de que nossa espera se acabe de vez.

[ demônios ]

"-- Adieu, mon amour!" era a última do livro que o acompanhou durante oito anos sem que a leitura fosse consumada. Ele lia até a metade, abandonava as páginas durante meses, lia mais um pouco e deixava o mistério de lado. Chegou a começar a leitura toda de novo, mas parou no último ponto do penúltimo capítulo. Vez ou outra olhava o livro na estante, passava o dedo na lombada, foleava de um lado para o outro sentindo a brisa do papel no rosto. Titubeava, curioso, mas nunca se deixava levar pela contradição do desejo de percorrer as linhas até o fim. Tinha medo da última página, medo de terminar a leitura e a obra deixar de pertencê-lo, ele deixar de pertencer a obra. Inacabada, era como se a leitura fosse o sentido de todo seu esforço para entender os próprios fragmentos que julgava pertencer a um canto qualquer do que se chama literatura.

Na madrugada, como de costume, chegou até a janela e percebeu a cidade calada. Estranho para uma metrópole. A imagem das luzes nos prédios que não se acendiam nem se apagavam, a ausência de sons e o ar estagnado lembraram a cena exata daquele último ponto responsável pelo intervalo de anos. Pegou o livro e foi engulindo as frases enquanto toda a leitura anterior se dava mentalmente, em retrocesso. Oito anos por poucas páginas. Adeus, meu amor. Adeus.

Aproximou-se da pilha de livros sobre a bancada, coisas ainda a serem lidas, e jogou o exemplar no topo. Ele lê cada vez mais e cada vez mais do mesmo.

[ _____ ]

o melhor amigo do homem
não é um cão,
mas dois: café + cigarro.

[ _____ ]

eu não quero o amor da flor de cactus, nem de lótus, a flor.
eu quero a folha.

[ o prisioneiro ]

Já vivi muitos cárceres para agora me deixar levar pelo acaso, pela obrigatoriedade dos fatos ou pelas manhãs, que todos os dias vejo nascer. Não mais me importo em construir espaços virtuais e inexistentes na certeza de que, a qualquer hora, as linhas de tijolos intercalados por cimento poderão mudar de rumo, ser cobertas por argamassa e pastilhas coloridas. Cansei de fazer sentido e de buscar sentidos. Meu novo cárcere sou eu mesmo.

[ _____ ]

a melancolia é uma dávida.
quem dela faz bom uso, tem tudo na vida.

[ o início do meio ]

Saiu da terapia com o olhar distante, compenetrado no nada, no horizonte que não existia. Não tinha respostas, só a confusão mental. Entrou no elevador correndo, porta aberta, presa pelo braço de um rapaz nos seus quarenta, simpático até. Agradeceu e o rapaz disse algumas palavras inaudíveis, cujas respostas se limitaram a é mesmo, é verdade, tamanha a absurdidade do que acabara de entender antes de colocar os pés para fora da sala. Da terapeuta.

Ele sabia que só encontraria -- e definiria -- as personagens quando organizasse pelo menos as tangentes de sua confusão mental. Colocou o cigarro na boca assim que saiu do prédio e foi, caminhando no breu, sob a garoa. Além de já não discernir mais os dias das noites, pôs-se a pensar que sua vida era construída de interrupções, como uma linha pontilhada. Mas uma linha reta; tracejada, cheia de lacunas.

Fazia coisas demais. Sentia ausência de si mesmo. Cobrava muito de si mesmo, não sabia lidar com fracassos e por isso, fazia coisas demais, grande parte delas interrompida pelo medo do fim, e do possível fracasso. Ele sabia que ter medo das possibilidades de ser era o mesmo que inexistir, não ser ninguém. Ele sabia. Faltava descobrir a fonte do martírio.

Entrou no café e subiu para o mesanino, gostava de ficar lá no canto, vendo tudo de cima, sem ser incomodado. Um expresso, pediu, duplo. Teve o insight de que seu próximo livro dependia só daquilo, ele, e a iluminação. Ligou o notebook. Entre cafés e cigarros.

[ infância i ]

"I used to think that the day would never come
I'd see delight in the shade of the morning sun
My morning sun is the drug that brings me near
To the childhood I lost, replaced by fear
I used to think that the day would never come
That my life would depend on the morning sun."

-- true faith, new order --

[ eu sei ]

o escritor saiu às ruas. andou alguns quarteirões sentindo o cheiro da garoa no asfalto e, no trajeto, prestou atenção no lixo espalhado perto dos postes que ia amolecendo e soltando sumo misturado aos pingos. chegou a uma pequena pracinha ladeada por prédios, um restaurante e um órgão oficial. chacoalhou seu ipod para trocar de música e escolheu um banco menos molhado. sentou-se. a grama já ameaçava crescer acima do rasteiro. o estio dava seus primeiros sinais alheios ao nome da estação. são paulo é assim.

acendeu um cigarro e olhou para cima. as janelas de um dos prédios refletiam distorcidamente o movimento dos carros, o prédio do outro lado, as nuvens. olhou para os pés e viu seu rosto, translúcido na poça rasa. as imperfeições do cimento áspero fundiam-se, cambaleantes, às marcas de expressão que surgiam na testa, horizontais. reclinou um pouco mais a cabeça para expor um pouco mais a nuca às gotas remanescentes de chuva. aos poucos, foi se deixando levar pelo frescor, pela brisa, pelo leve calor do sol, pelo som dos cães correndo na grama úmida, abafado pela música nos fones.

ele buscava um fio condutor. tinha um livro inteiro na cabeça, mas nada de concreto. não conseguia escrever. jogava ideias esparsas e fragmentadas na tela do computador, apagava tudo antes que desse tempo de se arrepender. reescrevia uma ou duas frases, acendia dois cigarros, andava de um lado para o outro, afundava o rosto na rede de polietileno da janela e olhava lá embaixo, tentando reconhecer imagens no chão de ardósia da área comum do prédio, como fazia com as nuvens em dias de sol.

fechou os olhos querendo não ver mais seu rosto disforme quando abrisse-os de novo. escutou no fone and you can use my skin to bury secrets in and i will settle you down. abriu os olhos e deu de cara com os próprios olhos, balançando na superfície da água, olhando de volta. esboçou um sorriso que, aos poucos, foi virando de fato um sorriso. não se lembrava da última vez que tinha sorrido, exceto das gargalhadas que escondiam sua angústia e que dava junto dos amigos, raramente presentes, contados.

so for the time being, i'm being patient, and amidst this bitterness, if you'll just consider this --even if it don't make sense all the time -- give it time

retirou o fone do ouvido esquerdo, calando fiona apple pela metade. colocou o celular na orelha e se levantou, pisando na poça. "alô. ei, tudo bem. descobri o fio. o óbvio. preciso lapidar o que me cerca. o que procuro está em mim, não lá fora. vamos tomar alguma coisa? pouco tempo. depois já tenho o que fazer enfim: escrever".